"Brasil Santo - Retratos da Fé" parte de uma premissa sempre capaz de gerar inúmeras análises - sociológicas, antropológicas, sócio-comportamentais, sócio-econômicas. A ideia inicial de
Gil Baroni e
Monica Rischbieter, que assinam o roteiro e a direção, era uma ficção sobre a religiosidade e a influência da religião na vida das pessoas - que deveria se chamar "Brasil de Todos os Santos". Um roteiro chegou a ser concebido em 2005. Mas o projeto ganhou novo rumo e daí surgiu o documentário "Brasil Santo - Retratos da Fé", exibido na mostra competitiva de longas-metragens do 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino.
O filme é autoexplicativo em seu título. Ou quase. A equipe de Baroni e Rischbieter viajou pelo interior dos estados do Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo retratando/fotografando personagens que falassem sobre a sua fé. Mas, mais do que isso, são pessoas - invariavelmente simples e humildes - que creditam à fé sua própria existência e a posição que ocupam na pirâmide social. Num exercício de condescendência explícita, são indivíduos que, diante da sua incapacidade intelectual fruto da esquizofrenia sócio-econômica, conformam-se com o status de miseráveis. São o que são e estão aonde estão por obra e desejo divinos.
A câmera do fotógrafo
Beto Carminatti registra, ao mesmo tempo, o contraste entre as belas paisagens brasileiras e as difíceis condições de vida daqueles que habitam a imensidão do Brasil. Estes personagens falam de sua fé e devoção incondicionais por um santo - em muitos casos, por mais de um. Uma personagem diz que não ignora nenhum santo e ora por todos eles. O raciocínio parece simples e conveniente: algum haverá de ouvir sua preces. É igualmente interessante perceber que, mesmo a oração não tendo absolutamente nada a ver com o resultado final, outro personagem conta que graças à fé e às preces sua aposentadoria finalmente foi aprovada. Isso depois de um ano e meio de preces diárias.
Assistir ao documentário "Brasil Santo" somente como um recorte de uma sociedade movida pela fé pode ser uma experiência interessante ou no mínimo curiosa. Há inclusive momentos que comovem - seja ele de forma absolutamente espontânea, como o da personagem que ao cantar uma música que termina com a frase "abraço" se levanta para abraçar a diretora Monica Rischbieter; ou aquele cinematograficamente esquematizado, quando um personagem diz estar comovido, chora, e a câmera obviamente dá um close no personagem.
"Brasil Santo" tinha um caminho e sobretudo personagens que certamente renderiam uma bela tese. Mas o documentário deixou escapar uma grande oportunidade de provocar uma reflexão mais profunda sobre o tema. O filme ganharia muito trazendo análises de antropólogos, sociólogos, líderes religiosos; enfim, pensadores que pudessem adicionar ao debate um contraste também científico e, além do mais, iluminar o filme com uma outra luz que não a das milhares de velas que os fieis acendem aos seus santos. Mas, ao focar somente nas declarações dos devotos, o filme resume-se apenas a uma leitura mais simples daquilo que sugere o título: um álbum de fotografias de fieis. Não por acaso os entrevistados aparecem todos eles estáticos, diante de panos pintados, como se estivessem sendo fotografados por um lambe-lambe. São imagens que dependiam de muitas palavras para dizer algo mais.