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Lavoura Arcaica
(Lavoura Arcaica, Brasil, 2001)


Por Rubens Ewald Filho

Por duas vezes, no filme, se diz que ''A Paciência é a virtude das virtudes''. Pois justamente a paciência é uma virtude que se tem que exercer ao assistir a este filme nacional (já quatro vezes premiado: no Fest Rio, na Mostra de SP, especial do Júri em Biarritz, contribuição artística em Montreal), certamente dos mais belos, ousados, íntegros e difíceis que o cinema brasileiro já fez. Que está muito perto da obra-prima (eu usaria a pedante frase francesa ''Uma obra prima manqué''). Tivesse o diretor um pouco mais de humildade, cortando uns vinte ou trinta minutos de ''gordura'', não teria perdido nada de importante e o filme se tornaria mais acessível e certamente teria uma carreira melhor. Não quis, problema dele.

Mas também nosso. Fica difícil recomendar paciência para um espectador irrequieto e desacostumado a uma linguagem mais rebuscada e intelectual, principalmente quando são muitos os jovens que freqüentam mais o cinema. Mas vou fazer isso. Tenha paciência porque vai valer a pena. Raramente se viu um filme (ou um diretor que tem um trabalho tão pessoal quanto Luiz Fernando Carvalho) a serviço de um texto literário, que Carvalho segue de maneira tão respeitosa, quase o reverenciando.

O livro homônimo é de Raduan Nassar e uma unanimidade na literatura nacional. Todo mundo adora (o escritor até sem querer contribuiu para o mito, dizendo que não irá mais publicar livros fora este e ''Um Copo de Cólera'', já filmado com menos sucesso). O caso de Luiz Fernando é muito especial. Há 15 anos, num Festival de Gramado, fiquei estarrecido com um curta co-dirigido por ele chamado ''A Espera'' (com Diogo Villela, Marieta Severo, Malu Mader), que era uma autêntica obra-prima (desculpem abusar da palavra). Logo depois Luiz Fernando foi absorvido pela televisão, tornando-se o diretor de trabalho mais pessoal na Rede Globo, em novelas como ''O Rei do Gado''.

Pessoal e lento, o que obviamente lhe causava problemas. Mas finalmente realizou seu amor pelo cinema neste projeto complicado, cujas filmagens foram precedidas por um longo trabalho de preparação de atores que durou quase três meses. Isso três anos atrás. Passou este tempo todo refinando o filme (tudo é excepcional, desde a fotografia de Walter Carvalho à trilha musical inspirada em temas árabes; na verdade, prepararam o filme viajando para o Libano e pesquisando em loco a cultura, já que a historia é autobiográfica e mostra uma família de imigrantes libaneses muito restritos que vivem numa pequena fazenda no interior, em tempos não muito definidos).

Difícil também definir ou descrever ''Lavoura'', que é uma sensação audiovisual. Comecemos falando do elenco excepcional. Selton Mello, concorrendo na mesma semana com este filme e outro trabalho completamente diferente e igualmente ótimo, que é ''Caramuru'', consegue se tornar o melhor ator brasileiro de sua geração sem qualquer sombra de dúvida (é um espanto sair da sala e cruzar com ele, que é um garotão que humildemente coloca todo o mérito no diretor, quando obviamente sua contribuição é notável, tanto fisicamente – emagreceu cerca de 20 quilos - quanto psicologicamente, fazendo um imersão num personagem sombrio e amargurado, epiléptico, a ovelha negra de uma família de imigrantes.

É curiosa a opção de não se usar sotaques e seguir o texto literário, nada coloquial, mas que dá um clima meio litúrgico, meio shakespeariano (também um certo distanciamento). Descrito como a história do filho pródigo às avessas, é sobre um rapaz que fugiu de casa e se refugiou num lugar (parece pensão) onde recebe a visita do irmão mais velho (que deseja levá-lo para casa). A fita já começa com uma seqüência forte (mas não chocante sexualmente) com o personagem se masturbando. Curiosamente o protagonista não é herói, na verdade é um obsessivo que se revolta através da sensualidade contra o controle e rigidez paterna (não espere conflitos do tipo ''O Clone'', porque não é linear nem convencional).

Através de idas e vindas, levadas sempre pelo texto em off, ficamos conhecendo a fazenda, o cotidiano da família (ele também é visto como criança) e a paixão que ele nutre pela irmã (revelação de Simone Spoladore que está radiante no filme), como é protegido pela mãe (a discreta mas irrepreensível Juliana Carneiro da Cunha). O pai feito por Raul Cortez se mantém num segundo plano até perto do final, quando há um grande diálogo entre ele e Selton, um notável embate que é o ponto alto do filme (mas sempre de forma literária). Caio Blat faz o irmão mais novo com uma única e boa (e forte) cena.

Por mais que a gente relute em embarcar no filme, até por sua própria narrativa lenta, ele é de tal forma arrebatador, de tal beleza, foge tanto das convenções banais, que fica difícil encontrar até mesmo parâmetros para julgá-lo (não sei bem com o que compará-lo, um exercício que os críticos gostam muito, embora o argentino Fernando Solanas o tenha chamado de oratório e realmente tenha certa semelhança com o estilo mais barroco do diretor de ''Tangos, Exílio de Gardel''). A não ser como um exercício de sensibilidade, uma quase obra-prima de um notável cineasta (em seu primeiro longa), um elenco majestoso. Um filme único na História do cinema brasileiro.


PS.: Com tantos elogios, porém, e para quem possa interessar, não acho que ele tivesse chance na corrida dos Oscars®. Não vi ''Abril Despedaçado'', mas só o prestigio de Waltinho e o fato de que a Miramax o comprou para o mercado americano e o irá divulgar e promovê-lo já é uma garantia de que terá o lobby certo. Não se tratava de escolher o melhor filme nacional, mas aquele que tinha mais chance de ficar entre os finalistas do prêmio.



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